terça-feira, 4 de maio de 2010

FENOMENOLOGIA PIERCIANA - A Terceiridade

Por fim, chegamos à Terceiridade. Vejamos, com atenção, o que nos diz Santaella sobre isso:

Diante de qualquer fenómeno, isto é, para conhecer e compreender qualquer coisa, a consciência produz um signo, ou seja, um pensamento como mediação irrecusável entre nós e os fenómenos. E isto, já ao nível do que chamamos de percepção. Perceber não é senão traduzir um objecto de percepção em um julgamento de percepção, ou melhor, é interpor uma camada interpretativa entre a consciência e o que é percebido. Nessa medida, o simples acto de olhar já está carregado de interpretação, visto que é sempre o resultado de uma elaboração cognitiva, fruto de uma mediação sígnica que possibilita nossa orientação no espaço por um reconhecimento e assentimento diante das coisas que só o signo permite.

O homem só conhece o mundo porque, de alguma forma, o representa e só interpreta essa representação numa outra representação, que Peirce denomina interpretante da primeira. Daí que o signo seja uma coisa de cujo conhecimento depende do signo, isto é, aquilo que é representado pelo signo.(…) (Santaella, 1998:51,52)

"(…) Daí que, para nós, o signo seja um primeiro, o objecto um segundo e o interpretante um terceiro. Para conhecer e se conhecer o homem se faz signo e só interpreta esses signos traduzindo-os em outros signos.

Em síntese: compreender, interpretar é traduzir um pensamento em outro pensamento num movimento ininterrupto, pois só podemos pensar um pensamento em outro pensamento. É porque o signo está numa relação a três termos que sua acção pode ser bilateral: de um lado, representa o que está fora dele, seu objecto, e de outro lado, dirige-se para alguém em cuja mente se processará sua remessa para um outro signo ou pensamento onde seu sentido se traduz. E esse sentido, para ser interpretado tem de ser traduzido em outro signo e assim ad infinitum. O significado, portanto, é aquilo que se desloca e se esquiva incessantemente. O significado de um pensamento ou signo é um outro pensamento.

Por exemplo: para esclarecer o significado de qualquer palavra, temos que recorrer a uma outra palavra que, em alguns traços, possa substituir a anterior. Basta folhear um dicionário para que se veja como isto, de fato, é assim. (Santaella, 1998:52)
“Em primeiro lugar, esses três possíveis estados da mente não podem ser entendidos como dados estanques. Disse Peirce: “Nenhuma linha firme de demarcação pode ser desenhada entre diferentes estados integrais da mente, isto é, entre estados tais como sentimento, vontade e conhecimento. É claro que estamos activamente conhecendo em todos os nossos minutos de vigília e realmente sentindo também. Se não estamos sempre querendo, estamos pelo menos, a todo momento, com a consciência reagindo em relação ao mundo externo”.

Em suma: “o que em mim sente está pensando”, diria depois Fernando Pessoa. Em segundo lugar, a camada do pensamento interpretativo, pensamento sob auto-controle, é apenas a camada mais superficial, mais à tona da consciência. Essa camada, no entanto, pode, a qualquer momento, ser quase que fendida, subvertida pela existência dê uma mera qualidade de sentir ou pela invasão de um conflito: instâncias de um lampejo ou lapso de tempo que fissuram a remessa incessante de signo a Signo da racionalidade interpretadora. Tratam-se de instâncias, portanto, em que a abstracção cognitiva é quase fendida e a consciência encontra um ponto tangencial em que é corpo do mundo e no mundo, instante indiscernível e intraduzível de maior proximidade física e viva da consciência com o fenómeno apreendido. Nessa medida, para nós tudo é signo, qualquer coisa que produz na consciência tem o carácter de signo. No entanto, Peirce leva a noção de signo tão longe a ponto de que um signo não tenha necessariamente de ser uma representação mental, mas pode ser uma acção ou experiência, ou mesmo uma mera qualidade de impressão. (Santaella, 1998:53)


RESUMO FENOMENOLOGIA:

Retomando, resumidamente e de maneira simplificadora, podemos dizer que a Primeiridade é tudo que está presente à consciência num determinado instante e é composta de todo aspecto de qualidade vivenciado neste determinado momento. O primeiro é espontâneo e imediato, original e livre. A Secundidade é a reflexão envolvida nesse processo, quando surgem as referências que permitirão inferências que levarão a um terceiro. Por fim, a Terceiridade é o que se segue ao sentimento e ao conflito, à resistência. É a “camada da inteligibilidade”.

Portanto, vimos que 3 elementos constituem todas as experiências. Eles são: as categorias universais do pensamento e da natureza. Primeiridade é a categoria que dá à experiência sua qualidade distintiva, seu frescor, originalidade irrepetível e liberdade. Não a liberdade em relação a uma determinação física, pois que isso seria uma proposição metafísica, mas liberdade em relação a qualquer elemento segundo. O azul de um certo céu, sem o céu, a mera e simples qualidade do azul, que poderia também estar nos seus olhos, só o azul, é aquilo que é tal qual é, independente de qualquer outra coisa. Mas, ao mesmo tempo, primeiridade é um componente do segundo. Secundidade é aquilo que dá à experiência seu carácter factual, de luta e confronto. Acção e reacção ainda em nível de binariedade pura, sem o governo da camada mediadora da intencionalidade, razão ou lei. Finalmente, Terceiridade, que aproxima um primeiro e um segundo numa síntese intelectual, corresponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo. Por exemplo: o azul, simples e positivo azul, é um primeiro. O céu, como lugar e tempo, aqui e agora, onde se encarna o azul, é um segundo. A síntese intelectual, elaboração cognitiva — o azul no céu, ou o azul do céu —, é um terceiro. (Santaella, 1998:51)

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